O Pulso

A caçada é frenética. Um homem corre de policiais que tentam alcançá-lo á todo custo, e ele sente que os oficiais se aproximam a cada minuto. Felizmente os becos do centro são estreitos, e para um tipo tão magro como ele é fácil se esquivar, porém a polícia usa aqueles exo-esqueletos fantásticos que dão velocidade sobre-humana à sua equipe. O homem vira uma esquina e rola uma lata de lixo pelo caminho espalhando peixe fedido e cascas de batatas pela viela, mas isso mal desacelera os homens-da-lei. Ele sabe que o segredo guardado em sua mente livrará o planeta da ditadura, e assim tem a certeza de que não pode desistir. Muitos morreram para que ele pudesse chegar até ali. Tantos sacrifícios, tantas pessoas deram a própria vida pela causa. Ele não poderia falhar.

Serpeando entre um labirinto de ruelas ele tenta escapar das garras da falsa lei. Tiros passam bem perto de seu ouvido, mas ele vai se jogando atrás de latões e caixotes velhos. Porém naquela curva mais larga ele não é rápido o bastante, e uma bala alcança suas costas. O tiro é tão forte que o faz girar 360 graus antes de tocar com força o solo. Em meio à rotação outra gota de chumbo derretido penetrou sua barriga fazendo-o sentir uma dor excruciante como nunca tinha sentido antes. O homem cai de cara no chão e sente o gosto ferroso de seu próprio sangue.

John Pepper acorda de um sonho estranho. Ele está completamente suado e sente o coração palpitar como nunca tinha acontecido antes. Cospe no chão só para ter certeza da transparência de sua saliva e o cuspe encontra seu tênis novo.

– Merda! Eu usei esse tênis só uma vez!

Sacode então a cabeça se sentindo extremamente idiota, e se prepara para mais um exaustivo dia de trabalho. Como todo reles mortal o dia vai começar e acabar como qualquer outro da sua miserável vida. Ao menos é o que John pensa.

Psicólogo, ele começa todos os dias da mesma maneira. Vai até o espelho e recita o mantra que todos os cidadãos aprendem desde o nascimento. Estranhamente naquele dia o mantra soa distante e sem sentido, como se fossem palavras soltas em uma frase. Apesar de estar entoando o cântico, sua mente vaga e perambula em milhões de outras coisas aparentemente desconexas.

– Acorda John. – Ele diz a si mesmo. – Cê tá ficando louco cara? Que viagem é essa?

Ele se senta para tomar café e estes estranhos pensamentos que o seguem dia-a-dia, voltam a atormentar.

– Essa merda está cada vez mais frequente. Como eu faço pra isso parar? O psicólogo aqui sou eu. Se eu não tiver o poder sobre o meu cérebro, como é que vou convencer meus pacientes a ter?

Chegando ao escritório, John se sente um peixe fora d’água. Mais do que nunca ele se vê deslocado em relação às pessoas que o rodeiam.

– Bom dia doutor John. – diz Maria, a sua bela secretária. Maria tem cabelos muito cacheados e a pele negra. Sua retaguarda farta faz qualquer um esquecer a falta de seios volumosos.
– Bom dia Maria. – ele responde – Desmarque todos os meus compromissos hoje. Não estou me sentindo muito bem.
– A sua dor de cabeça voltou doutor John?
– Não. Ela não aparece há muito tempo. Hoje eu não quero ser incomodado, ok?
– Pois não, senhor.

Era bem estranho pensar nessa dor de cabeça. Este era um incômodo recorrente que todos sentiam, e ele mesmo já não sentia há algum tempo. Pelo menos isso tudo – o que quer que fosse – tinha um lado bom. Adeus à dor de cabeça, adeus às pílulas. Elas o deixavam meio grogue.
Apesar da dor não estar presente ele bem precisava de um tempo para colocar sua mente em ordem.
John percebe subitamente que o telefone estava tocando havia um bom tempo, e perdido em seus devaneios ele não percebeu.

– Maria, eu não disse que não queria ser incomodado?
– Me desculpe doutor, mas você deveria atender a esta ligação. É da polícia.
“Será que eu fiz algo de errado? Creio que não. Faço tudo certo, pago meus impostos. Não deve ser nada sério.” – diz a si mesmo em pensamento
– Ok Maria, pode passar a ligação.

– Bom dia doutor John. Quem fala é o tenente Caxambú. Requisito imediatamente sua presença no necrotério Boa Esperança. O senhor sabe onde fica? Preciso do senhor aqui o mais rápido possível, pois temos um…
Não importava mais. Sua mente parou de processar após a palavra “necrotério”.
– Como assim necrotério? – ele pergunta – Morreu alguém?
– Não posso dar explicações mais detalhadas por telefone. Por favor, venha até aqui para que possamos conversar. – diz o tenente Caxambú.

O doutor John sai cambaleante de seu escritório e se senta no sofá da recepção.

– Doutor John. O senhor está bem? – Pergunta Maria
– Estou sim. Chama um táxi urgente, e me pega um copo d’água.
– Com açúcar?
– Não. Água pura.
– Está com dor de cabeça doutor? Se quiser eu pego um dos meus comprimidos na bolsa. Eu sempre trago alguns a mais.
– Não. Você sabe que eu não tomo esse remédio mais. Minha dor de cabeça parou já tem um bom tempo. Inclusive, marca um horário com o neurologista pra eu dar uma olhada nisso. Todo mundo ter dor de cabeça e eu não é muito estranho.

O táxi chega, e doutor John repassa mentalmente se as pessoas mais próximas poderiam estar em perigo enquanto ruma para o necrotério. Ele sente que os anos em frente ao computador começam a custar caro, e a mão dói e lateja como nunca. Isso tudo sem contar, é claro, a estranha sensação da mente estar sendo bombardeada de informações totalmente sem sentido.

Chegando ao necrotério o tenente Caxambú o recebe à porta. Ele tem o biótipo quase padrão de um oficial da ROTAM. Aquele tipo de policial que aparece em uma Veraneio 76 com o braço para fora da janela arrastando o cassetete no chão, no exato momento em que você está passando em um beco mal iluminado.
Infelizmente o momento não permitia piadinhas ou logros psicológicos.

– Por favor, me acompanhe às geladeiras doutor. – disse Caxambú

Enquanto anda para a área das geladeiras John enxerga vislumbres do beco com qual sonhou na noite anterior, e tenta limpar a mente de pensamentos tão nefastos.

Quando se dá por si já está parado em frente a um saco preto, e uma pessoa vestida de branco o espera segurando a gaveta aberta. No crachá pode-se ler o nome da legista.
Pietra de Cássia é uma bela jovem de cabelo loiros amarrados em um belo rabo de cavalo. Os anos na faculdade de medicina lhe rendem profundas olheiras roxas, mas não apagam o brilho juvenil que desponta nos olhos da moça.

– Meus pêsames doutor John. – diz Pietra

Ele sente seu estômago afundar, como quando deixamos uma faca cair, e nos lembramos que não podemos apará-la com o pé. Ou aquela sensação de quando descemos mais de um degrau de uma vez.

– Como assim meus pêsames? O que você quer dizer com isso?
– Tenente Caxambú, ele ainda não sabe? – ela pergunta com os olhos arregalados.
– Como assim eu não sei? Que história é essa? Abre logo esse saco preto! – Esbraveja o doutor John
– Fique calmo doutor. Pietra, por favor abra o saco. – diz Caxambú

John Pepper quase desmaia.

continua…

Se você gostou e quer ser avisado do lançamento da segunda parte deixa nos comentários o seu contato e eu te avisarei pessoalmente.

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