O Pulso – Parte 2

Seu melhor amigo Nikolai está deitado naquela gaveta totalmente branco e desfalecido. Seus olhos fechados e apáticos não demonstram a menor compaixão com a situação que se passa em volta. Lembranças voltam à mente do dr. Pepper com uma força descomunal:

Ele e Nikolai estão bebendo cervejas enquanto assistem a um jogo de futebol;
Agora ambos estão entrelaçados com garotas que possuem alianças de namoro, e cada um dá um sorriso para o outro com aquela cara de quem sabe estar fazendo algo errado;
Nikolai, agora com 13 anos, está pregando chiclete no cabelo da garota que se senta na carteira à sua frente;
Doutor John no auge de seus 5 anos percebe que o garotinho loiro está sozinho no parque, e o pergunta se aceita que eles se tornem amigos.

– Meu deus! Como isso foi acontecer? – E John percebe que já está sentado em uma cadeira com um copo de água açucarada na mão.
– Beba, doutor Pepper. – Diz Pietra.
– Já foi cientificamente comprovado que água com açúcar não acalma ninguém! Não vou beber nada! – e o copo se espatifa contra a parede.
O tenente Caxambú intervém: – Se acalme doutor!
– Não me peça para ficar calmo! Meu melhor amigo está morto, e eu não estou entendendo mais nada! Qual foi a causa mortis?
– Um tiro nas costas e outro no estômago.

Tudo roda. A sala em volta vira um borrão, enquanto os dois rostos flutuam no turbilhão prata e branco. Ele percebe finalmente que tinha sonhado a noite inteira com a morte do melhor amigo. Como não percebeu que o sonho era sobre Nikolai? É claro que não poderia ter percebido, uma vez que o sonho se passou em primeira pessoa, e ele não passou em frente de nenhum espelho. Contudo, como é possível sonhar com alguém que está morrendo em um lugar completamente diferente? John se sente em um mundo que não é seu. Tudo parece um pesadelo terrível, que dói com uma realidade totalmente tangível.

John sente que tantas surpresas desagradáveis começam a cobrar seu preço, e um torpor misturado com dor de cabeça toma conta de sua visão. Dr. Pepper está apagando rapidamente enquanto Caxambú e Pietra o observam alarmados. Em seu último vislumbre de consciência vê uma pessoa encapuzada o observando pouco atrás dos dois conhecidos. Aquela imagem grava a retina de John.

Ao acordar doutor Pepper olha em volta e reconhece um quarto de hospital. Suas roupas estão dobradas em cima de uma cadeira, e um galo em sua nuca indica que ao desmaiar bateu a cabeça no chão. Sente tonteira, mas com esforço se obriga a ficar acordado. Quem era aquela pessoa encapuzada?

Entre as cortinas fechadas ele reconhece a voz de Pietra e Caxambú conversando baixo e rápido.
– Nós temos que contar pra ele. – diz Pietra
– Você sabe que ainda não é a hora! Ele não está pronto. Se ele bloquear a idéia logo de início, nós perdemos mais um.
– Mas ele precisa saber. Acabou de perder o melhor amigo! Já estão aparecendo os efeitos da anti-frequência. A dor de cabeça já passou, e ele não toma mais as pílulas.
– Não importa! Tudo tem seu tempo e sua hora. Shhh. Acho que ele acordou.
As cortinas se abrem e entram Pietra, Caxambú e uma enfermeira baixinha que ele nunca viu mais gorda.
– Toma, engole esses comprimidos. – Diz a enfermeira
– Pra que servem os comprimidos? – pergunta Pepper
– Para dor de cabeça.
– Não. Não preciso mais. A minha dor de cabeça já passou há tempos.
– Mas você tem que tomar. Recomendações médicas. – Insiste a enfermeira. Lê-se o nome Glória no crachá pendurado entre os seios fartos.
E Caxambú intervém: – Ele não quer tomar. Agora o deixe em paz. Paz é o melhor remédio.

Doutor Pepper olha em volta e procura suas coisas nos bolsos da calça.
– Cadê as minhas coisas?! Onde vocês botaram tudo?
– Calma doutor. Tudo o que estava no bolso foi colocado na gaveta. Pode olhar.
John abre a gaveta e encontra todos os objetos. Menos um.
– Tá bom, mas e o isqueiro?
Caxambú e Pietra trocam olhares.
– O governo levou o isqueiro. Eles disseram que era um item perigoso, e que eles teriam que levá-lo. Eu tentei ficar com ele para te devolver, mas eles foram irredutíveis. – Disse Pietra.
– Quê?! Como assim? Eles não podem simplesmente entrar no meu quarto do hospital, e levar as minhas coisas embora assim. Isso não é possível!
Então o tenente Caxambú tenta acalmar as coisas: – Eu vou tentar reaver seu isqueiro. Tenho alguns contatos nas forças especiais do governo, e pode ser que eles me ajudem.
– Agradeço muito tenente, até por que o isqueiro é meu. Ganhei de meu amigo Nikolai. Aliás, vocês têm mais informações sobre a morte dele?
– Bom. – diz Pietra – As únicas coisas que eu sei, é que ele chegou ao necrotério só de cueca, sem informações adicionais na ficha além do nome. Nós só conseguimos chegar até você, pois achamos uma referência sua no perfil dele em um site de relacionamentos antigo. Algo em torno de 5 anos atrás.
– Isso foi na época em que ele sumiu. Há 5 anos meu amigo Nikolai simplesmente desapareceu do planeta terra. Nossa amizade é antiga, mas aos poucos ele foi se tornando uma pessoa meio estranha. Criou umas teorias da conspiração meio loucas, com o governo controlando a mente das pessoas. Ele dizia que nossos cérebros têm uma freqüência eletromagnética, e que um cérebro afeta o outro. Sei lá. Pra mim até fazia um pouco de sentido, mas quem não o conhecia muito bem disse que ele estava ficando louco. Nikolai era um renomado físico nuclear e trabalhou inclusive naquele projeto que deu errado. LHC se não me engano. O pessoal dizia que o “Grande Colisor de Hádrons” deve ter arrancado um de seus parafusos. Um pouco antes de sumir ele me deu esse isqueiro. Disse que era para eu guardá-lo com a minha vida, e carregar pra onde eu fosse. Na hora eu não dei bola, mas depois que ele sumiu o isqueiro era a única maneira de me lembrar dele. Fiquei arrasado. Há pouco tempo recebi a notícia que ele tinha morrido. Nem dei bola. Se ele realmente tinha vontade que eu soubesse, não tinha morrido tão longe. Agora, ele aparece morto de novo, e vocês me chamam. Estou totalmente confuso.
– Pode ser que ele tenha feito isso por não ter outras escolhas. Às vezes a vida nos obriga a fazer coisas que nem nós mesmos queremos. E sobre essa teoria de Nikolai, o que ele chegou a te falar? – perguntou Caxambú
– Ah, disse que eu tinha que abrir a mente. Não explicou muita coisa, mas basicamente era algo sobre as mentes estarem afetando umas às outras simultaneamente, e o governo estar afetando todas para nos induzir a fazer coisas. Faz até sentido se você pensar que a mente não passa de um conglomerado de impulsos elétricos. Tudo bem que é uma coisa extremamente complexa, e eu não sei a que níveis isso é possível, mas no final até fazia sentido. Como eu falei, quem não o conhecia já o taxava de louco logo de cara, porém nós éramos muito amigos e ouvir o que ele tinha para dizer realmente abriu um pouco a minha mente.
– Hm, nenhuma teoria é inválida na teoria – diz Caxambú – Eu tenho que ir agora. O pessoal da DP já me encheu o saco aqui pedindo que eu volte.
– E meu isqueiro?
– Te prometo que vou fazer o possível para reavê-lo. Como garantia você pode ficar com os meus óculos escuros.
– Não precisa. O isqueiro era importante pelo simbolismo, e não pelo objeto.
– Eu insisto – disse Caxambú – Pra você poder ficar tranquilo de que eu vou fazer o que estiver ao meu alcance.
– Eu também tenho que ir. Ainda tem muito presunto pra catalogar lá no necrotério. – diz Pietra
– Espera um pouco. Sobre o que vocês estavam falando antes das cortinas se abrirem?
– Ah, nada de importante. Noutro dia a gente conversa melhor.
– Espera! Espera um pouco.
Mas a porta já fechada não deu respostas.
Doutor John resolveu dormir mais um pouco. Antes de dormir, se sentiu meio estranho, e sentiu a mente confusa novamente.

Em meio a sonhos viu novamente aquela figura encapuzada passando entre outros pensamentos. Agora ela era maior, e suas formas estavam mais nítidas.

Dr. Pepper acorda num pulo de seu sonho profundo com uma tosse descomunal. Agentes das forças especiais explodem a porta da enfermaria com escopetas, enquanto rolam mais gás pimenta para dentro da sala. Um turbilhão de policiais vai adentrar o cômodo, e John sabe que a coisa vai ficar feia para seu lado.

continua…

Se você gostou e quer ser avisado do lançamento das próximas partes deixe nos comentários o seu contato e eu avisarei pessoalmente quando saírem os próximos capítulos.

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